Boletim Eletrônico



'Vai haver uma alternativa socialista dos trabalhadores nas eleições'
Escrito por PSTU - BRASIL   
Seg, 01 de Março de 2010 23:15

Uma origem, duas histórias. Duas trajetórias que se iniciaram no mesmo cenário: a explosiva onda de greves operárias no ABC do final da década de 70. De um lado, o grupo de sindicalistas que ganhou expressão nacional cuja figura-chave é o atual presidente Lula. De outro, ativistas socialistas como José Maria de Almeida, o Zé Maria, lançado pré-candidato à presidente pelo PSTU.

 

Hoje, Zé Maria é um dos dirigentes do PSTU e integra a Secretaria Executiva Nacional da Conlutas. Se Zé Maria dividiu as grades com Lula durante a ditadura militar, hoje os caminhos são opostos. Na entrevista abaixo publicada pelo Opinião Socialista (jornal do PSTU), Zé Maria fala sobre sua trajetória, o governo Lula e sobre as razões do PSTU em lançar sua pré-candidatura. O pré-lançamento da candidatura de José Maria de Almeida à presidência mostrou que há  espaço para uma opção socialista para as próximas eleições. O primeiro e mais importante ato foi realizado no dia 13 de novembro, em São Paulo. Em seguida foi a vez do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belém, Fortaleza, Recife e Belo Horizonte.

Por que, apesar da origem em comum, sua trajetória foi tão diferente a de Lula e outros sindicalistas daquele período?

As nossas diferenças já eram muito grandes naquele período. Lula já integrava a burocracia sindical que vinha da ditadura, e resolveu cavalgar as mobilizações que surgiam naquele período. Mas, diferente de nós, nunca teve uma perspectiva socialista.

Dentro do PT, desde a sua fundação, se estabeleceu uma luta política muito dura quanto ao seu programa e a estratégia que aquele partido abraçaria. E a cada encontro do PT, dava para perceber uma “escadinha” de abandono de tudo o que havia de mais radical e anti-capitalista, nas definições programáticas e na carta de princípios do partido.

Qual o sentido da sua pré-candidatura à presidência?

Já há um esforço enorme de toda a burguesia para apresentar alternativas para 2010. Projetos para o país que representam nada mais que os interesses da própria burguesia, mas que são vendidos para os trabalhadores como projetos que defendem melhores condições de vida para todos. Isso porque o apoio ou no mínimo a passividade das massas é condição fundamental para que a burguesia possa continuar espoliando a classe trabalhadora e manter a sua rentabilidade.

Vivemos, por outro lado, uma retomada das lutas e das greves. Apesar de ainda muito pontuais, há um processo de lutas em que os trabalhadores partem das reivindicações mais concretas e enfrentam, ainda que de forma parcial, os efeitos da crise econômica. É uma necessidade dos trabalhadores que essas lutas estejam representadas através de um projeto que faça a disputa política eleitoral no ano que vem. Esse é o desafio da esquerda socialista.

Como você analisa o governo Lula?

As pessoas obviamente não esperavam de Lula uma revolução, mas que pelo menos se revertesse uma prioridade histórica que sempre caracterizou as ações dos governos que é a prioridade aos bancos, às grandes empresas. O que nós vimos nesses sete anos de governo, porém, é que não só não mudou essa prioridade como houve uma intensificação no sentido do atendimento desses interesses patronais.

Quando veio a crise, o governo adotou centenas medidas para proteger os banqueiros e as empresas. O jornal Globo publicou uma reportagem em dezembro do ano passado mostrando que, só de setembro a dezembro, as medidas do governo transferiram para bancos e empresas o equivalente a R$ 375 bilhões (aproximadamente 180 bilhões de dólares). E de lá para cá tivemos ainda uma série de medidas, como a isenção de impostos para montadoras de veículos e a chamada linha branca (geladeira, eletrodomésticos etc.). Mas não houve nenhuma medida para proteger os trabalhadores. Essa crise veio mostrar de forma mais categórica a opção feita pelo governo.

E a política externa do governo?

O Brasil tem um peso muito importante na América Latina. Poderia, por exemplo, diante do estado de penúria que vive o continente, chamar uma unidade dos países sul-americanos para suspender o pagamento das dívidas, rechaçar as políticas neoliberais. No entanto, essa influência é exercida em sintonia com os interesses do imperialismo na região. O governo age para estabilizar situações como na Bolívia, Equador, ou Honduras e por aí afora.

 Com a crise ficou ainda mais grave, pois Lula se utiliza de seu prestígio na tentativa de se salvar instituições como o FMI, num contexto em que o mundo está indo abaixo exatamente pelas orientações do próprio fundo. O esforço do país de inserção no cenário político internacional é o esforço de ser parte  dessa ordem estabelecida e dominada pelo imperialismo. O Haiti é a expressão mais grave disso. É a força armada do Brasil sendo utilizada diretamente para garantir os interesses das transnacionais instaladas no Haiti. Não há papel mais vergonhoso que se possa cumprir hoje do que esse É esse o papel internacional que Lula quer para o Brasil.

Qual vai ser então o papel da direita nas eleições?

Esse é o grande problema da direita no Brasil. Eles não têm um programa alternativo para apresentar. Por quê? Porque o programa do Lula é o deles. Lula simplesmente pegou o programa do ex- presidente Fernando Henrique Cardoso e segue aplicando. Algumas vezes, até com mais competência do que o próprio. Até porque Lula tem mais respaldo e, portanto, maior capacidade de ação. Agora, obviamente, a direita tradicional, embora tenha acordo com a política que Lula aplica, não abre mão de disputar e controlar ela própria o aparelho de Estado. Hoje, a burguesia governa  através de Lula e do PT. Ela gostaria de controlar, porém, através do PSDB e de José Serra (1).

 E a candidatura de Marina Silva?

A articulação da candidatura Marina (2), apesar de tentar se diferenciar de Lula, não difere de nada do que foram os sete anos do governo Lula até agora. Até porque Marina Silva é completamente cúmplice dos crimes mais graves que foram cometidos contra o meio ambiente no nosso país nas últimas décadas. Lula liberou os transgênicos no país quando Marina era a ministra do Meio Ambiente. O governo Lula é responsável pela transposição do Rio São Francisco. Quando dom Cappio estava à beira da morte (2) contra a transposição não se ouviu um “a” da ministra Marina Silva. Quando o governo Lula aprovou Lei que loteou a Amazônia para os madeireiros do mundo inteiro, não se teve nenhuma ação da ministra para impedir que aquilo acontecesse. Então não há nenhuma diferença de conteúdo entre o que é Marina Silva, Dilma Roussef ou Ciro Gomes, é tudo a mesma coisa.

Sua pré-candidatura substitui o chamado à Frente de Esquerda, ou ele se mantém?

Nós achamos que a esquerda socialista brasileira tem a obrigação de, no ano que vem, apresentar uma candidatura que seja expressão da luta dos trabalhadores nas fábricas, nas escolas, nos bairros. E nós achamos que a melhor forma de fazer isso é através da unidade dos três partidos socialistas brasileiros que estão no campo da oposição ao governo Lula: o PSOL, o PSTU e o PCB.

O que ocorre é que, pela evolução política que acontece principalmente dentro do PSOL, é cada vez mais difícil a constituição dessa frente. Nós queríamos uma candidatura da Heloísa Helena (3) com o vice de nosso partido, pois achamos que o patrimônio político dela é muito importante e poderia potencializar essa disputa. Heloísa aparentemente decidiu que não vai ser candidata à presidência, preferindo disputar o Senado por Alagoas. O PSOL vive uma crise muito grande, as decisões tomadas em seu congresso apontam para um conteúdo programático da campanha com a qual não há a mínima possibilidade de o PSTU concordar.

Mas nós vamos seguir com o chamado e esperar a evolução política nesses meses. O que queremos registrar é que a pré-candidatura, ao mesmo tempo em que segue fazendo o chamado à Frente, expressa também uma outra sinalização. De que vai haver uma alternativa dos trabalhadores nas eleições: com uma Frente de Esquerda ou através de uma candidatura do PSTU.

Heloísa Helena já declarou publicamente seu apoio à Marina Silva. Como você vê isso?

Não há nenhuma possibilidade de uma aliança que envolva o PSTU em torno de uma candidatura de Marina Silva, que vai ser a candidatura de um setor da burguesia brasileira disfarçada. Mas, por outro lado, esse apoio é a expressão do retrocesso político da direção do PSOL. Ou seja, seria um passo trágico para um partido que se diz socialista.

Caso se concretize, qual vai ser o perfil da candidatura do PSTU?

Nosso programa vai expressar as lutas dos trabalhadores nos sindicatos, movimentos populares, dos estudantes e as suas reivindicações.  Mas, partindo disso, precisa ainda avançar em duas questões fundamentais. Em primeiro lugar, fazer a ligação dessas lutas com a estrutura mais de fundo da sociedade capitalista e na busca da construção de uma sociedade de outro tipo, uma sociedade socialista. Então, o programa tem que ser anti-capitalista, deve apontar para a necessidade não só da estatização do sistema financeiro de maneira geral e das grandes empresas que foram privatizadas, mas também para o questionamento da propriedade privada, que é a base do sistema capitalista e é o mecanismo fundamental para a concentração da riqueza produzida pelo povo para alguns poucos banqueiros e empresários.

É preciso apontar então para a ruptura com o capitalismo e também para a ruptura com a dominação do imperialismo, cuja dominação política se exerce através dos organismos multilaterais e os monopólios econômicos. O programa deve ainda questionar os mecanismos que permitem a perpetuação desse sistema. Não são as eleições que vão mudar a vida dos trabalhadores, são suas lutas e sua organização. Então, nossa candidatura vai expressar as lutas, denunciar o regime de governo e apontar uma saída socialista.

 (1) governador de São Paulo e provável candidato da oposição de direita à presidência.

(2) ex-ministra do Meio Ambiente e candidata do Partido Verde. O PV brasileiro é uma partido burguês que funciona como uma legenda de aluguel. Tem cargos em diferentes governos estaduais do país, inclusive no governo Lula. No estado do Mato Grosso, por exemplo, apóia o governador Blairo Maggi (PR), um dos maiores produtores de soja do país, é um conhecido inimigo da causa ambiental. Foi até premiado pelo Greenpeace com o troféu “Motosserra de Ouro”, dedicado aos inimigos da causa ambiental. Entre seus dirigentes está o filho de José Sarney, corrupto oligarca que preside o Senado.

(3) frei que realizou duas greves de fome contra as obras de transposição do Rio São Francisco.

 (4) ex-candidata à presidência da república pela Frente de Esquerda em 2006. Sua candidatura obteve mais de 6 milhões de votos.


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