Boletim Eletrônico



Os Novos Ricos do Uruguai – Parte 1 PDF Imprimir E-mail
URUGUAI
Ter, 08 de Março de 2011 17:37

 

Elementos e caracterizações necessárias sobre “os novos donos de nosso país”
 
-A fábrica de pasta de celulose Botnia, localizada no oeste do Uruguai, passará para as mãos de um grupo finlandês.
 
-Na semana passada, a empresa aérea canadense Jazz acordou a compra de um terço do capital da firma privada que detém 75% das ações da Pluna e que controla a companhia de nacionalidade uruguaia. Somente os 25% restante da empresa está nas mãos do Estado uruguaio.
 
 -A empresa Montes del Plata (conformada pela sueca-finlandesa Stora Enso e a chilena Arauco) anunciaram ao presidente da República que na próxima semana oficializarão seu investimento, que será o mais importante já recebido pelo país.
 
-“A República” confirma que o diário foi vendido a um grupo de investidores argentinos
 
Trata-se de buscar respostas para perguntas como: Que mudanças ocorreram nos últimos 20 anos nos setores dominantes? Quem são os que detêm hoje os meios de poder? Quem favorece o enriquecimento desses setores? Qual a relação destes com o atual governo e os partidos políticos?
 
A nota intitulada “Os ricos, fora de agenda” de Carolina Porley[1] afirma que em nosso país “aumentam os estudos sobre a pobreza e não ocorre o mesmo sobre a riqueza”. Isto se deve ao fato “de que dos anos noventa para cá, o que se encontra é um grande vazio nos estudos desta temática” e – de acordo com alguns pesquisadores consultados-“a dificuldade de se investigar os ricos é de que estes não querem ser identificados e, mais do que isso, não declaram seus o verdadeiro tamanho dos seus lucros...”
 
“Além disso, o tema está praticamente fora de moda nas ciências sociais; nem os sociólogos fazem hoje estudos da estrutura social e análise da classe dominante, nem os economistas se preocupam com os grupos econômicos e os problemas da concentração da riqueza”.
 
O historiador econômico Raúl Jacob, numa entrevista sobre seu livro “A ilusão e o ouro” – uma investigação publicada há 10 anos- afirma que nos anos 90 ( durante o governo de Lalle e 2ª presidência de Sanguinetti) ocorreram fatos bastante significativos: a criação do MERCOSUL, a reforma constitucional que modificou o sistema de 2° turno nas eleições e a entrada no país de redes como o Mc Donald’s, entre outros. Estes fatos poderiam está produzindo “algo como uma refundação do país” devido à profundidade das mudanças em curso a partir da década de 90.
 
O historiador assinala também que “O livro sobre os grupos econômicos- Stolovich, Rodríguez e Bértola, anos 80- é atualmente um testemunho histórico. A maior parte dos grupos econômicos que os autores abordaram desapareceram como tais. Não digo que se fundiram, senão que já não existem mais como existiam (...) Muitos deixaram de ser proprietário de ativos, mas isso não significa dizer que estão fundidos, podem ter dinheiro canalizado em outras propriedades e no exterior. É difícil saber o que realmente se sucedeu, mas certamente houve uma grande reestruturação”. [2]
 
Reconversão e Internacionalização da Agricultura e Indústria
 
A partir dos anos 90, produziram-se mudanças em alguns grupos econômicos muito poderosos e conhecidos. Jacob cita os exemplos do grupo Soler, conhecidos pelos estabelecimentos vinculados à indústria têxtil, que deixaram esse ramo e passaram a investir na indústria automobilística. Outro caso conhecido é o da família Strauch que abandonou a fábrica de produtos de limpeza e higiene pessoal para entrar na indústria eletrônica.
 
No entanto, o processo mais emblemático destas mudanças foi a entrada de grupos estrangeiros em setores estratégicos da economia do país. Isso se deu tanto na agropecuária como na indústria, sendo seu peso cada vez maior.
 
O peso das Empresas Estrangeiras na Economia
 
·         A produtora de arroz Saman – propriedade do grupo Camil alimentos do Brasil- foi a principal exportadora do Uruguai em 2009. Saman controla 50% do total da produção de arroz do país.
 
·         O segundo lugar foi ocupado pela empresa de produtos lácteos CONAPROLE. (Uruguai).
 
·         O terceiro ficou com a Companhia Florestal Oriental – UPM (ex-BOTNIA), com um crescimento de 74% em suas vendas comparadas com as de 2008.
 
·         Quarto lugar: Barraca Jorge W. Erro, representante da MONSANTO (sementes transgênicas) e aliada da estadunidense Archer D. Midland, que teve um crescimento de suas vendas para o exterior em 67%
 
·         Quinto lugar: Crop Uruguai, exportadora de grãos do grupo CARGILL
 
·         Sexto lugar: Estabelecimentos Colonia, frigorífico do grupo Tucuarembó-Marfrig.
 
·         Sétimo lugar: Frigorífico Las Piedras.
 
·         O oitavo lugar foi ocupado pelo Frigorífico San Jacinto-Nirea S.A.
 
·         O Frigorífico Tucuarembó (também do grupo Marfrig) ocupou o nono lugar.
 
·         Completando a lista, no décimo lugar, a empresa Garmet S.A. (grãos), que em 2008 ocupava o 26° lugar e deve seu crescimento ao aumento de suas exportações em 51,6% no ano de 2009.
 
Caso fosse levado em consideração o conjunto das vendas para o exterior das empresas do grupo MARFRIG, este passaria a ser o maior exportador, com um total de U$$ 330 milhões, o que representa 6% do total das exportações do país em 2009. Por outro lado, a empresa estatal ANCAP caiu do 3° para o 18° lugar em sua participação nas exportações do país. [3]
 
2009: O Peso das Empresas Exportadoras Estrangeiras Aumentou
 
Em 2009 a participação das empresas exportadoras estrangeiras aumentou. No ano de 2008, das 15 maiores empresas exportadoras do país, nove eram estrangeiras. Já em 2009, as empresas estrangeiras aumentaram sua participação e, dentre as 15 maiores exportadoras, 11 já eram de fora do país. Isto já considerando que, em 2009, a empresa de curtume Branáa já começou um processo de venda de 50% de suas ações para o grupo Tacuarembó-Marfrig [4]
 
Os investimentos estrangeiros na indústria frigorífica uruguaia seguem aumentando. A chegada do grupo brasileiro Marfrig – que já opera com 5 fábricas – somou-se a JBS-Friboi que controla o Frigorífico Canelones. Também chegou o grupo inglês Breeder&Packers que construiu um frigorífico de última geração em Durazno, o qual já está operando, mas num ritmo muito inferior as 2000 cabeças de gado que é seu objetivo. Também em Durazno, haverá um investimento de capitais angolanos.
 
O grupo argentino Pérez Companc tem ações do Frigorífico San Jacinto. Mais recentetemente, outro grupo argentino demonstrou interesse em comprar um prédio municipal em Soriano para construir outra fábrica frigorífica, também destinada à exportação. [5]
2009 y un alza de 12,4% frente al máximo previo registrado en 2008 de US$ 6.017 millones.
 
As cifras correspondentes a demanda de exportação de bens confirmaram as estimativas acerca de um novo recorde histórico em 2010. De acordo com a informação revelada pela União de Exportadores do Uruguai a partir dos Documentos Únicos das Aduanas (DUAs), as exportações somaram U$$ 6.763,8 bilhões no ano de 2010, o que significou um crescimento de 23,08% em relação a 2009 e um aumento de 12,4% diante o melhor resultado registrado até então na historio, U$$ 6.017 bilhões em 2008.
 
 
Celulose, Papel, Cevada, Panificação e Telecomunicações
 
A chegada do consorcio Montes del Plata – que nasceu da fusão da sueca finlandesa Stora-Enso e da chilena Arauco, firmou em janeiro de 2011 um convênio com o governo uruguaio para a construção de uma fábrica para extração de celulose em Conchillas (oeste), além de um porto e uma unidade geradora de energia com recursos renováveis. Esta madeireira se soma a já existente UPM (ex BOTNIA) e a aquisição do grupo argentino TAPEBICUA, que comprou 97% do pacote acionário da FANAPEL, a qual era a maior empresa nacional.
 
A produção de cerveja está totalmente nas mãos da empresa brasileira IMBEV, com interesse especial no cultivo e exportação de cevada.
 
Outro exemplo é o setor de panificação industrial, no qual o grupo mexicano BIMBO comprou 100% do Maestro Cubano, Los Sorchantes e Pan Catalán.
 
No setor de telecomunicações, a ANTEL segue dando trabalho aos seus dois grandes concorrentes, a Telefônica da Espanha (agora também dona da Telecom) e o grupo mexicano Slim. Estão aparecendo algumas empresas menores vinculadas à transmissão de dados e acesso a Internet.
 
Atenção especial devemos dar aos setores de tecnologia da informação, televisão e rádios, onde os movimentos de compra e concentração se dão de forma mais subterrânea, mas existem e com fortes pressões de países vizinhos e do México. Foi um grupo deste país que comprou sete rádios e vai comprar outras três.
 
Em relação aos jornais, primeiro foi o El Observador, que vendeu uma participação acionária, cujo montante não foi divulgado, ao grupo liderado pelo empresário brasileiro Ernesto Correa (que acaba de vender o frigorífico Pul ao também grupo brasileiro Minerva). E agora é o ICK, poderoso grupo econômico da província argentina de Santiago del Estero, que ficou com 60% da empresa de multimídia Fasano – o que corresponde ao jornal La República, 1410 AM Libre e TV Libre.
 
Turismo, imobiliárias e serviços
 
Os maiores operadores turísticos, hoteleiros, transporte éreo e marítimo, aeroportos, etc. são notoriamente estrangeiros
 
No ramo das grandes construtoras e investimentos imobiliários, pode-se dizer que na capital, Montevidéu, seguem sendo, fundamentalmente, uruguaios, enquanto que na porção leste, a maioria são estrangeiros. Nas empresas vinculadas à logística e engenharia ainda predominam alguns grupos nacionais, mas os avanços dos grupos internacionais é violento.
 
Uma primeira conclusão
 
Os maiores investimentos industriais previstos – com cifras impensáveis em nosso país até pouco tempo atrás – são obviamente de grupos internacionais como UPM-Botnia (Finlândia), Montes del Plata (stora Enso-Arauco, sueca-filandesa-chilena), STORA ENSO (Suécia), WAYERHAUSER (Estados Unidos) e RIO TINTO (Austrália).
 
No setor bancário não restou um banco privado nacional ou com participação de capitais nacionais. A operadora de crédito dos uruguaios OCA, líder no mercado nacional, pertence ao banco brasileiro ITAÚ.
 
Todos estes exemplos nos permitem afirmar, categoricamente, que o número e a importância dos empresários nacionais nos setores chaves da economia do país, ou seja a burguesia nacional, foi reduzido drasticamente.
 
Não há dúvida de que, nos últimos vinte anos, a burguesia nacional perdeu peso e seguirá perdendo de maneira crescente e acelerada.[6]

[1] Brecha 5/11/2010
[2] Entrevista a Raúl Jacob – Sema­nario Brecha 5/11/2010
[3] Diario El País Economía 6/1/2010
[4] Diario El País Economía 6/1/2010
[5] El Discreto Encanto de la Burgue­sía Nacional (Esteban Valenti)
[6] El Discreto Encanto de la Burgue­sía Nacional (Esteban Valenti)
 
Tradução: George Bezerra

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