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Os novos ricos do Uruguai – Parte 2 PDF Imprimir E-mail
URUGUAI
Qua, 23 de Março de 2011 03:08

 

A desnacionalização e internacionalização da terra no Uruguai. “No Uruguai, de acordo com a entrevista de Raúl Jacob, há mais de 80 famílias donas de grandes propriedades rurais com sobrenomes bem conhecidos, como Bordaberry, Gallinal, De Brum, Heber, Manini Ríos, Martínez de Haedo, Stirling, Frick, De Posadas, Lussich e Risso...”
  
O que aconteceu com esses e outros grandes proprietários de nos últimos 20 anos?
 
Jacob explica que… ”Houve um momento que metade das terras uruguaias eram arrendadas e, aqui, faz-se necessário fazer uma distinção entre quem trabalha na terra e quem são seus proprietários. O cultivo de soja busca terras para arrendar, o que pode acontecer neste caso é a liquidação da empresa agropecuária, mas não a perda de sua propriedade. É importante levar em consideração que a cada meio século, aproximadamente, no Uruguai, uma porcentagem importante de terras mudava de mãos...”
 
“Uma análise do sistema político nos apresenta elementos interessantes para analisar a questão da terra no Uruguai; há uma metade que mudou e outra metade que segue sendo os mesmos. Dois dos candidatos presidenciais, Lacalle e Bordaberry, pertencem à tradicional classe ligada ao latifúndio, apesar de estes sejam advogados”. (5)
 
A quem pertence a outra metade das terras uruguaias?
 
O investidor norte-americano George Soros é um dos principais compradores de terras no Uruguai, através de uma companhia que opera da Argentina. Assim assegura uma reportagem sobre o valor da terra no Uruguai publicada pela agência Bloomberg. É uma extensa publicação que inclusive foi destaque na televisão. A agência assinala que um terço dos campos uruguaios já pode ser propriedade de estrangeiros, de acordo com os dados da Associação Rural do Uruguai.
 
Entre os principais investidores figura as empresas de vacas leiteiras PGG Wrightson Ltd de Nueva Zelanda y Adecoagro, uma empresa que funciona a partir de Buenos Aires e que tem o respaldo do milionário especulador George Soros. A Agência consultou Roberto Vázquez Platero, ex-ministro da Pecuária, que apontou que os investidores sentem-se atraídos pela terra uruguaia, relativamente barata, e pelas políticas que incentivam os investimentos estrangeiros e lhes desoneram de pagar impostos sobre as exportações agrícolas.
 
Isto fez que o preço da terra mais que duplicasse nos últimos três anos. Um hectare de terra perto da fronteira com a Argentina custa US$ 7.000, quando em 2005 custava US$ 3.000, disse Michael Thomas, gerente geral dos sistemas agrícolas da NZ Ltd Uruguai, a qual é propriedade de Wrightson, a maior empresa de serviços agrícolas da Nova Zelândia. Na Argentina, um hectare de terra pode chegar a valer US$ 10.700. Estes preços são maiores que os de um hectare no estado de Iwoa (EEUU), cujo preço alcança a cifra dos US$ 9.657.
 
Por outro lado, o informe indica que o grande atrativo para os investidores argentinos é a ausência de impostos sobre a exportação, como os que são cobrados na Argentina, denominadas de “retenciones”. Na Argentina, o vice-presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcati, disse que a produção de gado cairá em seu país e “é só uma questão de tempo antes que o Uruguai supere a Argentina como exportador de carne”. A Argentina foi, no ano passado, o quinto maior exportador mundial de carne, enquanto o Uruguai ocupou a oitava posição, segundo o departamento de Agricultura dos Estados Unidos. (6)
 
Pedro Arbeletche, professor do departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Agronomia da UDELAR, assinou: “Claramente, a chegada de produtores estrangeiros está aprofundando a concentração da produção. Na safra de 2007/08, seis empresas – a maioria estrangeiras ou ligadas ao capital estrangeiro – plantaram, aproximadamente, uns 25% das terras agricultáveis.
 
A concentração da terra não é único problema. Segundo explica Arbeletche: “estes novos produtores utilizam sistemas de plantio contínuos, diferentes dos tradicionais sistemas de rotação de cultura e pastagens que preservam melhor a terra enquanto recurso natural”. Isto implica em sérios riscos, já que “se o sistema é da monocultura de soja, resulta na erosão e degradação do solo”.
 
Na última década, a superfície cultivada com soja no Uruguai aumentou quase 50 vezes, passando de 12.000 hectares, na safra de 2000/01, para 577.000 hectares em 2008/09, sobretudo devido aos investimentos de produtores argentinos.
 
Quem representa este novo setor estrangeiro e exportador?
 
Não temos nenhuma dúvida da vinculação direta entre os líderes e outros dirigentes dos partidos Branco e Colorado com as históricas famílias de grandes latifundiários e de exportadores de nosso país. Eles controlam, ainda hoje, uma porção importante dos recursos econômicos do Uruguai. No entanto, o estudo que queremos começar a analisar é quem representa este novo setor estrangeiro que comprou e segue comprando uma parte muito importante das terras e indústrias nacionais; esse setor que está se enriquecendo rapidamente e que está começando a controlar os mais importantes recursos econômicos do Uruguai.
 
Numa entrevista concedida ao jornal “El Observador”, o atual vice-presidente Danilo Astori, dá algumas respostas interessantes sobre o tema. Nela, explica as facilidades que o governo de Frente Ampla está oferecendo aos empresários estrangeiros para se instalarem no país e os benefícios que resultam destes incentivos.
 
Astori assinala que: “O novo sistema de incentivos que se colocou em prática a luz da nova lei de investimentos, a partir de 2008, modificando e aumentando as isenções fiscais, faz com que o estado uruguaio ofereça mais exonerações de impostos, desde que as empresas estejam alinhadas a aspectos que ao país lhe interesse promover (...). Há todo um sistema de pontos que permite chegar aos 100% de exoneração de impostos sobre a renda empresarial (...)”
 
“Uruguai nunca havia tido um sistema de incentivos para investimentos tão potentes como o atual. A ele se agregam outras conveniências, como a admissão temporária (que é a possibilidade de importar sem impostos mercadorias que logo são utilizadas como matérias primas de bens voltados para exportação), o regime de aeroporto livre e porto livre, que são fundamentais para a circulação de mercadorias e completam o conjunto de principais incentivos”.
Em março de 2010, no começo de seu mandato, o presidente Mujica fez um pedido aos investidores privados, chamando-os a investir no país; em troca lhes oferecia estas medidas tão benéficas para as multinacionais. Outra fábrica de Celulose acaba de desembarcar e várias empresas estrangeiras estão com os olhos voltados para o nosso país. (7)
 
Tradução: George Bezerra.

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