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Bicentenário: A “Independência” do Uruguai PDF Imprimir E-mail
URUGUAI
Sex, 03 de Junho de 2011 02:08

 

Uma das maiores infâmias políticas perpetradas pela burguesia comercial portenha foi a independência uruguaia.

Os autores nacionalistas a têm apontado, mas ligando-a a influência britânica e brasileira. Colocando assim, se diluem um tanto as responsabilidades históricas. É a oligarquia comercial argentina a principal culpada, assim como a burguesia pecuária uruguaia, pelo contrário, é a que impulsiona a unidade em uma só república federal.

Recordemos que em 1821 o Brasil se transformou em um estado independente (Grito do Ipiranga) e a Banda Oriental [Uruguai] continuou parte do império como Província Cisplatina. Buenos Aires se opôs, ainda que timidamente, à política expansionista de Pedro I. Na verdade, os ingleses, verdadeiros instigadores da política brasileira, aspiravam que o Uruguai se convertesse em um “estado-tampão” independente dos países em conflito.

Iniciaram-se as hostilidades e, com o bloqueio do porto de Buenos Aires pelo almirante brasileiro Lobo, a guerra se aprofundou. Dentro do território uruguaio, enquanto isso, um grupo de patriotas sob comando de Lavalleja, conseguiu sucessivos triunfos contra os invasores e declarou na Flórida, no dia 25 de agosto de 1825, que “o voto geral decidido e constante da província Oriental é pela unidade com as demais províncias argentinas a que sempre pertenceu através dos vínculos mais sagrados que o mundo conhece”.

Nos dias de maio havia sido a burguesia pecuária uruguaia, com seu líder Artigas à frente, quem realizara vigorosos esforços para impedir a ruptura incitada pela elite de Buenos Aires. Em carta ao governador de Corrientes, José de Silva, o caudilho oriental expressará sua amargura: “Buenos Aires até aqui tem enganado ao mundo inteiro com suas falsas e dissimuladas intenções. Estas têm formado sempre a maior parte de nossas diferenças internas e não tem deixado de excitar nossos temores a publicidade com que mantêm hasteado o pavilhão espanhol. É o lúcido porta-voz de uma burguesia pecuária muito mais dinâmica e importante que a argentina, que ao dispor de um magnífico porto natural, Montevidéu, lhe possibilita melhores condições para possuir charqueadas bastante antes que Buenos Aires. A burguesia comercial uruguaia, ao contrário, está ligada à França e busca romper o bloqueio do Rio da Prata que dá lugar à guerra brasileiro-argentina, separar a Mesopotâmia, dando todo tipo de facilidade aos competidores mundiais de Sua Majestade britânica.

Porque a burguesia portenha facilitou e até mesmo promoveu a separação da Banda Oriental do território das Províncias Unidas? Pela diferença abissal entre os portos de ambas as margens: Montevidéu é muito melhor para operar que Buenos Aires, e então a unidade da província oriental com o resto do país vai originar o controle do comércio por parte dos uruguaios. Daí a manobra: “conceder a Independência”.
 
Depois, a diplomacia inglesa e portuguesa se encarregaria de impedir que todo o rio ou oceano fosse controlado por uma mesma nação, facilitando deste modo a política das burguesias mercantis de ambas as margens do Rio da Prata. Jorge Canning expressa isto claramente em sua carta a seu enviado Ponsonby: “Havia-se que tomar todas as precauções, mediante cláusulas precisas, para assegurar ao Brasil o gozo ininterrupto à navegação sobre o Rio da Prata. Sua Majestade, no caso desta solicitação, não se negará a prestar sua garantia para a observância desta estipulação”. Sem embargo, devemos reiterar que as potências estrangeiras não fizeram mais que abonar o trabalho efetuado pela nefasta oligarquia portenha, criando e sustentando um “colega” uruguaio que lhes serviu ao manter a todo custo a independência uruguaia, esta aberração nacional, cultural, histórica, política e econômica, a que o povo e os trabalhadores de ambas as margens do Prata estão pagando tão caro: a divisão em dois estados independentes de uma só nacionalidade, a rioplatense.   
 
Nahuel Moreno, Método para a interpretação da história argentina.
 
Tradução: Arthur Gibson


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