| Apesar da sanguinária repressão, a heroica luta do povo sírio se intensifica |
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| DECLARAÇÃO LIT-QI |
| Escrito por LIT-QI |
| Dom, 28 de Agosto de 2011 05:24 |
Todo o apoio à luta do povo sírio pela queda do regime assassino de Assad!
Arde o mundo árabe. Revolução e contrarrevolução travam uma batalha mortal entre sangue, pólvora, barricadas, punhos erguidos e gritos de liberdade.
A grande vitória do povo líbio, que se armou e está destruindo com suas ações diretas o regime assassino de Muammar Kadafi, vem impulsionar com força descomunal a ascensão revolucionária das massas no Oriente Médio e no Norte da África. Apesar dos enormes perigos que implicam para essa revolução a intervenção imperialista via OTAN-ONU e o caráter burguês-entreguista do autoproclamado governo dos rebeldes, o Conselho Nacional Transitório (CNT), essa conquista democrática do povo líbio abre espaço para aprofundar a “primavera árabe”, pois pende a balança da correlação de forças a favor das massas.
No meio de todo esse vendaval revolucionário, o dramático caso da Síria adquire renovada importância. A ditadura genocida de Bashar al-Assad, atual presidente e membro de uma espécie de dinastia que governa o país há 41 anos, continua reprimindo impiedosamente o heroico povo sírio que, desde fevereiro deste ano, vem protagonizando multitudinárias e radicalizadas mobilizações contra o regime.
O pano de fundo das mobilizações do povo sírio é o mesmo que no resto da região. O coquetel explosivo que o compõe são, por um lado, as legítimas aspirações democráticas das massas e, por outro, os terríveis efeitos da atual crise econômica em um país onde 50% da riqueza estão nas mãos de 5 % da população síria, especificamente de setores ligados à família Assad e àqueles mais próximos aos dirigentes do Estado.
O massacre de Latakia...
Em 15 de agosto, a ditadura de Assad bombardeou com navios de guerra e tanques a cidade de Latakia, um dos centros da resistência e mobilização popular. A operação militar foi realizada em meio a uma mobilização de mais de 20 mil pessoas que exigiam a renúncia de Assad.
No ataque à população civil, morreram em torno de 35 pessoas, entre elas uma criança de dois anos. Outros milhares foram presos e levados, como nos tempos da sangrenta ditadura de Pinochet no Chile, a um estádio de futebol onde permaneceram sem água nem comida. A repressão foi e é sangrenta devido à força que a revolução vem adquirindo. Desde que o processo revolucionário começou, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, foram assassinadas mais de duas mil pessoas durante os protestos. Isto, longe de assustar as massas, estimula-as mais.
…e o ataque a um campo de refugiados palestinos
Durante o cerco militar a Latakia, as tropas governistas também atacaram um campo de refugiados palestinos na área de Al Raml, matando quatro pessoas e ferindo outras 20, como denuncia o opositor Comitê de Coordenação Local.
Isto provocou a fuga desesperada de entre 5 a 10 mil palestinos residentes no acampamento, que agora estão completamente à deriva, segundo denuncia a própria ONU. Um ativista sírio descreveu a situação dizendo: “Durante a noite homens armados do Exército ou de El Shabiha [os capangas do presidente] circulam pela cidade a bordo de furgões disparando contra as portas dos edifícios para evitar que as pessoas saiam às ruas para se manifestar” (El País, 15/8/11).
O ataque a esse campo de refugiados desmente, mais uma vez, a falsidade de quem afirma que o regime de Assad é solidário com a causa palestina ou que defende uma posição “pan-árabe” e “antissionista”. A realidade mostra que, apesar de seu discurso e da relação com o Hamas, o regime dos Assad abandonou a luta contra o Estado nazista-sionista de Israel a tal ponto que, atualmente, o governo israelense considera sua fronteira com a Síria como uma das mais “tranquilas”. Isto apesar de Israel manter a usurpação de uma parte de território sírio, as chamadas Colinas de Golã.
Mesmo que inicialmente e pressionado pelos protestos o regime de Assad tenha prometido de maneira difusa avançar em reformas democráticas dentro do regime, os acontecimentos desses meses encarregaram-se de desmascarar suas mentiras. Agora, inclusive, declarou abertamente que “não haverá reformas em meio à sabotagem e ao caos”, e chamou os manifestantes de “germes” que “devem ser exterminados” o quanto antes para evitar sua “velocidade de reprodução” (El País, 17/8/2011). Recentemente, declarou que os protestos e as mortes “não o incomodam” e que “não pensa em renunciar”.
O concreto é que, diante do justo levante popular pela democratização do país, a ditadura respondeu de forma sanguinária e criminosa, fazendo da Síria um dos países com a maior quantidade de mortes ocorridas no processo revolucionário árabe.
Chávez e Castro apoiam o assassino de Assad
Sabe-se que, desde o início das lutas do povo sírio, tanto Hugo Chávez como Fidel e Raúl Castro têm expressado seu apoio e solidariedade ao ditador árabe. Mantêm a mesma posição, até agora, em relação ao ditador Kadafi, praticamente derrubado.
Nem os horríveis massacres que o regime promove mudaram a posição do líder venezuelano, que incrivelmente continua chamando Assad de “humanista” e “irmão”.
Recentemente, Chávez declarou:“Saudamos o presidente Assad. Estão infiltrando terroristas na Síria, produzindo violência e mortes e, uma vez mais, o culpado é o presidente, sem que ninguém investigue nada”. Note-se que, para Chávez, o terrorista é o povo que luta, e não Assad.
Essa aliança, que vem de muito tempo, sempre produziu elogios do líder venezuelano ao ditador sírio. Quando Chávez condecorou Assad entregando-lhe nada menos do que a “espada de Bolívar”, afirmou que o ditador sírio “não só está à frente do povo sírio, como também dos povos da Arábia na luta incessante e valente pela liberdade, a paz e contra o imperialismo”. Com a mesma capitulação, disse ainda: “não exagero quando digo que tu és um dos libertadores do mundo novo”.
Ao apoiar ditaduras sanguinárias que assassinam os povos que tentam se libertar, o castro-chavismo revela sua verdadeira face. No caso da Síria, a traição do castro-chavismo é mais eloquente, pois neste país não existe uma intervenção imperialista como na Líbia, que é utilizada para justificar o apoio à ditadura de Kadafi. O que existe é um povo que luta por liberdades democráticas e que está sendo brutalmente reprimido.
Alguns podem esperar dos governos que se dizem “revolucionários”, como Chávez e os Castro, que estejam ao lado da luta dos povos contra os ditadores. Mas ocorre exatamente o contrário. Justificam sua posição com um discurso “anti-imperialista”, quando, na verdade, favorecem muito o imperialismo, dando espaço para que se posicione hipocritamente como o “defensor da democracia” ou dos “direitos humanos”. Esses dirigentes entregam a luta pelas liberdades democráticas nas mãos dos maiores criminosos da humanidade.
Nós, da LIT-QI, esperamos que os impressionantes acontecimentos da Líbia, onde o povo está liquidando o regime e as Forças Armadas de Kadafi extravasando toda a raiva acumulada por décadas, produzam uma mudança na política da corrente castro-chavista.
Nesse sentido, fazemos um chamado a todas e todos os ativistas sociais e à esquerda internacional, inclusive a que se reivindica castro-chavista, a refletir sobre a posição de Chávez e dos Castro de defender ditaduras contra os povos. A questão é muito grave porque na Síria existe uma revolução popular que está sendo duramente reprimida e que, mais do que nunca, precisa de toda nossa solidariedade e apoio ativo. A solidariedade é fundamental em qualquer luta; nos casos do Egito e da Tunísia, foi determinante para o triunfo das massas.
Se as massas sírias triunfarem, como está acontecendo na Líbia, todo o processo revolucionário árabe se fortalecerá e, consequentemente, daremos passos preciosos para o avanço da revolução árabe e mundial. Mas, para o triunfo das massas, é necessária solidariedade ativa. Por isso o apoio de Chávez e Castro ao ditador Assad (e a Kadafi) é nefasto. Tem implicações políticas concretas, pois, em grande parte, atrasa, diminui ou anula a solidariedade às revoluções síria e líbia por parte de amplos setores de esquerda.
Diante dessa postura reacionária, é preciso exigir de Chávez e dos Castro que rompam relações com Assad e se solidarizem com a revolução síria e líbia contra seus opressores.
A política do imperialismo
Toda a política do imperialismo responde à sua necessidade de evitar que o conflito sírio se estenda e se aprofunde na região, que já vive um estado de efervescência política e social.
Para o imperialismo, derrotar o processo revolucionário árabe é uma questão estratégica no sentido geopolítico e econômico.
Caso o processo revolucionário se prolongue, a dinâmica recessiva da economia mundial se agravará ainda mais. Pacificar a região para garantir as fontes de petróleo e manter o domínio político, por meio desses ditadores ou de outras saídas negociadas, é fundamental para os interesses do capital.
Nesse contexto, o imperialismo atua na Síria de forma similar a como atuou no Egito e na Tunísia. Como nesses países, começou apoiando e defendendo Assad. Conforme a situação foi se radicalizando e as massas foram aumentando sua autoconfiança e as mobilizações, não podendo ser contidas pelo regime, o imperialismo começou a mudar de posição em relação ao ditador sírio.
Foi assim que a Casa Branca iniciou, num primeiro momento, uma série de “exigências”, mas agora impulsiona sanções diante da extrema violência utilizada por Assad. Obama chegou a manifestar que a Síria “estaria melhor sem Assad” e Hillary Clinton disse que o ditador “perdeu legitimidade” e que “não é indispensável”. Representantes da ONU e da União Europeia tinham a mesma opinião.
Essa mudança na postura do imperialismo não é, obviamente, porque está preocupado ou comovido pelos milhares de mortes entre o povo empobrecido da Síria. O que preocupa o imperialismo é a estabilidade de um país e de uma região que está ardendo sob o fogo da revolução.
Como a ditadura de Assad demonstra não ser mais eficaz na contenção das massas e não conseguiu, até agora, derrotar a revolução, transformou-se em uma peça descartável para o imperialismo ou, como diz Hillary Clinton, em um elemento “não indispensável”. O “indispensável” para os imperialistas é a estabilidade política, é frear o processo revolucionário, seja por meio de uma saída negociada para manter o regime ou da brutal repressão da impressionante revolução árabe. Todo o resto é tático e secundário. Todos seus agentes são como fusíveis, mantidos na medida em que cumpram sua missão de conter a raiva acumulada das massas.
Os Estados Unidos estão deixando de apoiar e pressionando Assad porque o ditador não cumpre seu papel central: derrotar a revolução das massas trabalhadoras. O ditador sírio não só deixou de cumprir esta função eficazmente como, pior ainda, tenta apagar o incêndio com gasolina e o imperialismo corre o risco de que exploda tudo.
A história se repete como no Egito. Enquanto Mubarak foi útil, o imperialismo defendeu-o. Mas, quando a situação se tornou insustentável, Obama, hipocritamente, colocou sua máscara “democrática” e de “defensor” dos direitos humanos – após ter defendido o ditador por décadas - e trabalhou pela sua saída.
O imperialismo é hábil taticamente. Se chegar à conclusão de que é melhor perder o anel (um serviçal como Mubarak, Kadafi ou Assad) em vez de perder os dedos (uma revolução triunfante), não terá dúvida em fazê-lo.
Essa mudança de postura do imperialismo não acontece, como afirmam Castro e Chávez, porque Assad é um “anti-imperialista”. Ao contrário. Assad sempre negociou com o imperialismo, fazendo várias concessões. Há vários anos, é parte da “ordem” na região ao manter uma situação de paz com Israel. Isso sem contar as inúmeras ocasiões em que traiu a luta dos palestinos, que agora ataca dentro de seu território. O regime de Assad é definido claramente pelo general aposentado Effi Eitan, referência da extrema direita israelense: “O atual regime sírio é a melhor forma de governo possível para Israel”.
O fato de o imperialismo retirar o apoio ao ditador é, também, uma mostra de força extraordinária da revolução síria, que, com sua luta decidida, obriga a chamada comunidade internacional a se distanciar de Assad. Os únicos que, até hoje e apesar de tudo, apoiam explicitamente este assassino são Chávez, os Castro e o Irã.
Ainda que o mais provável seja que o imperialismo mantenha sua política de pressão sobre o regime e aposte numa saída negociada, nos marcos da reação democrática e tentando salvar o essencial do regime, não se pode descartar, no caso de a situação se tornar incontrolável, uma intervenção militar imperialista na Síria, tal como ocorreu na Líbia. Neste caso, nós, da LIT-QI, nos oporíamos categoricamente como fizemos no caso líbio. Uma intervenção desse tipo só debilitaria o processo revolucionário sírio e árabe como um todo e condenamos a mera possibilidade de que isso ocorra.
Todo nosso apoio à luta do povo sírio!
Nós, da LIT-QI, ratificamos nosso apoio à heroica e desigual luta que o povo sírio está travando, demonstrando estar à altura da entrega e da decisão no combate do conjunto dos demais povos árabes.
Solidarizamo-nos incondicionalmente com uma luta que é fundamental para o desenvolvimento da situação revolucionária mundial. Uma batalha que continua e cresce apesar das sanguinárias e impiedosas repressões.
Defendemos a derrubada de Assad por meio da ação direta do povo, das mobilizações de massas. Repudiamos qualquer tentativa ou tipo de intervenção imperialista ou de qualquer saída negociada que mude as pessoas mas que mantenha os pilares centrais deste regime repressivo.
Saudamos as organizações populares que, com coragem e desapego às suas próprias vidas, enfrentam o ditador Assad. Entre elas, destacamos o aparecimento e a atuação das Comissões de Coordenação Local da Síria, redes que coordenam os protestos e que surgiram no calor da luta revolucionária, formadas basicamente por jovens e setores populares que cumprem um papel independente.
É urgente unificar todas as lutas de resistência e organizar a autodefesa!
É necessário unificar as mobilizações em todo o país para que o povo sírio possa derrubar a ditadura, impor suas reivindicações e enfrentar as sanguinárias repressões. Nesse sentido, opinamos que é preciso que as organizações que fazem parte da resistência síria discutam e tomem medidas de autodefesa, que contemplem, no calor das mobilizações, dotarem as massas de armamento. Isso deve ser acompanhado, a nosso ver, de uma política para ganhar a base do exército e a baixa oficialidade para a causa da revolução, e existem condições muito favoráveis.
A revolução está demonstrando sua força e contundência por meio da impressionante ação das massas, o que está começando a rachar o exército regular do regime e isto deve ser aprofundado conscientemente. Na cidade de Jisr al-Shughur, no dia 17 de agosto, aconteceram as primeiras deserções coletivas de unidades militares que se negaram a metralhar a população. Uma quantidade importante de soldados se amotinou para se unir aos manifestantes civis, o que provocou uma batalha extremamente confusa e violenta entre militares leais e aqueles que se uniram ao povo, deixando um saldo de 120 mortos. A disciplina e a hierarquia do exército burguês começaram a se romper mediante os golpes da revolução.
No mesmo episódio, aproveitando o caos, um grupo de lutadores sociais conseguiu armas do próprio exército e somou-se aos tiroteios.
Aprofundar a divisão entre as forças repressivas e armar o povo é fundamental.
Fazemos um chamado a todo o movimento social e às organizações políticas que se reivindicam de esquerda a cercar de solidariedade ativa a luta do povo sírio, exemplo de resistência e combatividade.
As nossas organizações devem exigir a ruptura imediata de todos os governos com o governo assassino de Assad. Isso inclui, obviamente, os governos liderados por Chávez e os Castro, fiéis defensores desse regime, e o governo de Dilma no Brasil, que também, ainda que de forma mais dissimulada, expressou-lhe apoio político.
Nós, da LIT-QI, instamos o povo sírio e os lutadores mais conscientes da resistência a confiar somente em suas próprias forças revolucionárias e a não ter expectativas no imperialismo, nas correntes burguesas e islâmicas árabes.
É preciso lutar até a derrubada de Assad e a instauração de um governo de e para as classes trabalhadoras e exploradas sírias, que convoque e garanta a realização de uma Assembleia Constituinte livre, democrática e soberana para conquistar todas as liberdades democráticas e libertar o país do imperialismo. Este governo, assentado nas organizações populares, deve também processar e punir todos os crimes de Assad e de sua camarilha ditatorial; confiscar suas fortunas e colocá-las sob o controle e a serviço do povo faminto; anular todos os contratos de petróleo e outros pactos realizados por Assad que atam o país ao imperialismo; nacionalizar imediatamente o petróleo e todas as riquezas do país sob a administração do povo e a serviço de executar um plano de emergência que atenda as urgentes necessidades do povo trabalhador sírio, avançando para uma Federação de Repúblicas Socialistas Árabes.
Viva a revolução e a luta heroica do povo sírio!
Abaixo a ditadura e o regime assassino de Assad!
Viva a revolução árabe!
Por um governo operário e do povo que garanta uma Assembleia Nacional Constituinte livre e soberana!
Não à intervenção imperialista no mundo árabe!
Secretariado Internacional da LIT-QI
25 de Agosto de 2011
Tradução: Rosangela Botelho |
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