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O Movimento Ocupar na encruzilhada PDF Imprimir E-mail
EUA
Sáb, 03 de Março de 2012 23:05

O movimento Ocupar mobilizou dezenas e centenas de milhares de pessoas no outono e colocou a classe dominante contra a parede ideologicamente. Agora, o movimento Ocupar foi jogado para a defensiva e, recentemente, só tem sido capaz de mobilizar uma fração do que conseguiu no outono. Esta é uma mudança gritante: um movimento que falou dos interesses de 99% encontra-se agora falando em nome de 99% mas com o apoio muito menos amplo do que tinha há meses. No contexto dos duros ataques ao movimento (e prisões em massa) em Oakland e da participação relativamente pequena nas ações em San Francisco em 20 de janeiro, os ativistas estão agora “coçando a cabeça” e perguntando "para onde o movimento foi?" E, mais importante "como vamos recuperá-lo?”.


Violência e não-violência

Estas realidades provocaram o início de debates dentro do movimento Ocupar, centrados principalmente na violência e não-violência. Devem os ativistas tentar reocupar um edifício abandonado em face da repressão tão maciça do Estado? Será que tal ação é violenta? Os danos materiais constituem-se em violência? As garrafas atiradas na polícia são equivalentes às granadas de flash, gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes da polícia?

Para os socialistas e a maioria dos ativistas comprometidos com o fim da horrenda violência do sistema, não há comparação. A violência do Estado é várias ordens de grandeza diferente dos atos de ativistas comprometidos e, por vezes, desesperados que estão tentando fazer mudanças de baixo para cima. Além disso, uma comparação da violência policial com a violência dos ativistas obscurece a violência real que enoja a todos nós: mais especificamente, a violência do Estado capitalista e do imperialismo em destruir países inteiros através da guerra, o nosso planeta através da degradação ambiental e o nosso povo pelo desmantelamento das escolas, do sistema de saúde e dos nossos meios de subsistência. É essa violência que nos leva a agir e tentar fazer a mudança, é em nome dessa violência que a polícia e os militares são organizadas para defender o 1%. Para os socialistas (e outros) não há dúvida de que os reais provedores de violência são não a polícia ou os militares, mas o 1% que os contrata e os coloca em movimento para defender o seu sistema violento.

A democracia é uma questão de forma?

Há outros debates que começaram em torno das Assembleias Gerais. Qual é a melhor maneira de se fazer ouvir e tomar decisões democráticas? Votação por maioria simples, forte maioria de votos ou consenso? A questão da democracia não é simplesmente uma questão de forma. É para nós fundamentalmente uma questão de conteúdo social, de participação efetiva: "Quem está participando das assembleias? Quantas pessoas estão vindo? Quais setores dos 99% estão representados aqui? "Um conjunto de milhares ou mesmo centenas de estudantes, trabalhadores e membros da comunidade, como o que tivemos na Universidade de Berkeley em 15 de novembro de 2011 (mesmo usando uma regra de maioria elevada - 80%) é mais democrática que as atuais assembleias do Ocupar Califórnia, que só reúnem 20 pessoas, não importa que mecanismo de decisão eles usem. A questão da forma não é trivial, mas deve sempre ser lembrado que a democracia para nós é dada pela participação em massa na discussão, na tomada de decisões, e, claro, a implementação das ações para melhorar a nossa vida cotidiana.

Onde estamos agora

Os debates sobre violência e não-violência e sobre a tomada de decisões são muito importantes, mas a pergunta que temos de fazer é: estas perguntas vão ao cerne da questão? Nós não pensamos assim, porque agora eles identificam equivocadamente a fonte de hesitação do movimento. Vale lembrar que todas essas questões estavam potencialmente em jogo vários meses atrás, quando o movimento Ocupar estava no seu auge. Nesse ponto, as ocupações em todo o país simbolizavam o desgosto imenso que milhões de pessoas sentiam em relação a um sistema econômico que beneficiou apenas os ricos, corporações e bancos e um sistema político que é montado para representar apenas os interesses da minoria (1%). Ocupando espaços públicos, desafiando os ultimatos da polícia de dispersão não isolaram a mensagem do movimento aos 99%: de que estamos cansados de aturar isto e estamos resistindo. Assim, a tática de ocupar espaços públicos galvanizava os 99% por trás de nosso movimento e nos dava apoio público massivo, não importa o que a classe dominante fizesse. Este movimento expôs, como nenhum nas últimas décadas, que vivemos em um país profundamente dividido, que representa os interesses de uns poucos (1%) contra o resto de nós (99%).

Mas o 1% não fica parado enquanto nós nos organizamos, eles revidaram e o Partido Democrático está na vanguarda deste ataque. Muitos estão cientes de como as ocupações em todo o país foram perseguidas e atacadas nos meses anteriores e, algumas, completamente destruídas. Esta ofensiva da classe dominante é amplamente conhecida. Menos falada é a tentativa do Partido Democrata de cooptar a nossa mensagem e desmoralizar nosso apoio ideológico. Barack Obama (pela primeira vez em anos) fez declarações públicas altamente críticas à ganância dos bancos, às descabidas prioridades do governo, sobre a retirada de tropas no Iraque e o fim da guerra no Afeganistão.

Esta ofensiva ideológica fica ainda mais aparente pela cobertura diária das primárias eleitorais, que mostram os debates entre os diversos matizes dos reacionários republicanos, enquanto os democratas colocam-se como a alternativa "razoável" para um público profundamente preocupado com seu futuro e seus candidatos políticos. Isto é o que os socialistas demonstram quando falamos que as eleições nacionais (e toda a arrogância que vem com ela) têm um efeito profundo em nosso movimento e nossa capacidade de mobilizar e atingir as pessoas.

O erro cometido por escritores como Chris Hedges e outros ativistas que caracterizam a tática Black Block ou o ultraesquerdismo como o principal problema do movimento, é que ele identifica erroneamente o perigo real. Ele não vem primeiramente de sua ala esquerda, mas a partir da direita, do Partido Democrata e seu exército de sindicatos e apologistas liberais. A esquerda é fraca e politicamente imatura, sem dúvida. Mas escritores como Hedges arriscam-se a isolar a esquerda num momento em que é possível envolvê-la no diálogo sobre a melhor forma de criar um movimento de massas democrático, como ampliá-lo para incluir outros setores dos 99%, imigrantes e ativistas sindicais. Os próximos passos importantes que os socialistas devem fazer é a defesa clara dos 99% - ou seja, os setores da classe trabalhadora e dos oprimidos -, a nossa independência em relação ao Partido Democrata e transformar o movimento Ocupar para ter o poder político de reagir a esta reação ideológica, enquanto se constrói uma esquerda mais forte no país.

Tática e Estratégia

No contexto de um ataque físico ao movimento Ocupar combinado aos ataques ideológicos sobre o nosso público por parte do 1% (particularmente o Partido Democrata), o movimento Ocupar atual desviou-se de seu objetivo de expressar os interesses e mobilizar os 99% em oposição aos interesses do 1%, e tem-se focado em suas táticas de ocupações.

Até o momento, os ativistas do Ocupar concentram-se em ações mais ousadas e mais determinadas de ocupação dos espaços públicos para tentar reacender o apoio público para o nosso movimento. O que esses ativistas perderam de vista é que o apoio político dos 99% não foi porque estávamos ocupando espaços públicos, mas porque as ocupações estavam identificando-se com a raiva das pessoas contra a injustiça de uma sociedade que trabalha para o 1% e não para o resto de nós. Nossas ações deveriam ressaltar estas questões, se queremos reviver nosso movimento.

Porque as coisas mudaram e os nossos adversários (o 1%) fizeram ajustes, precisamos nos ajustar também. Não alterando os nossos objetivos (lutar pelos interesses dos 99%), mas pela sua rearticulação, para que possamos verificar se nossas ações (tática) estão funcionando para torná-los realidade, ou se estamos perdendo terreno desnecessariamente. A questão da violência e da não-violência ou consenso versus democracia estão mais próximas às questões táticas que serão melhor debatidas e discutidas, se todos nós formos claros em nossos objetivos (estratégia).

Mobilização nacional contra os cortes!

É por isso que acreditamos que o movimento Ocupar está certo em mudar para os ataques à educação pública e aos serviços sociais e em chamar uma nova onda de lutas contra os planos de austeridade. Os cortes no orçamento em todo o país e toda a miséria que vem com eles são as questões que estão mais afetando nossa base e também são os ataques aos 99% pelo 1% mais fáceis de perceber. O movimento Ocupar Educação NorCal (Universidade da Carolina do Norte) fez um chamado estadual para uma manifestação em 1º de março, seguida da ocupação do Edifício da secretaria de educação do estado de Sacramento em 5 de março. Estas ações são contra todos os cortes na educação pública e serviços sociais (e por verbas públicas) e para exigir tributar os ricos (com apoio ao imposto para os milionários e ao Imposto sobre o combustível para o Fundo da Educação, conforme o projeto de lei 1522). Ele é também uma chamada para defender a liberdade de expressão, nosso direito de reunião e um fim aos ataques da polícia ao movimento Ocupar. Quando este chamado foi feito em dezembro, os ativistas do Ocupar em Nova York, Ohio, e outros estados decidiram apoiar a Marcha do dia 1 º, fazendo do 1º de março um dia de ação de âmbito nacional. Então, o 1º de março tem o potencial de se ampliar para além da Califórnia para ser um dia de ação para defender os interesses dos 99% contra os do 1%.

O desenvolvimento do movimento Ocupar Educação, incluindo-se os serviços sociais, é fundamental, porque ele tem o potencial de organizar novos setores de nossa classe não apenas como "apoiadores" do movimento Ocupar, mas como atores. Ele também tem o potencial de inclusão de estudantes da classe trabalhadora que podem se organizar em suas escolas e faculdades e não apenas nas praças centrais. Ele também pode ajudar a mobilizar os pais e os trabalhadores que foram afetados pelos cortes nos serviços sociais e outras questões. Agora, Ocuppy the Hood[1] está surgindo em algumas comunidades da classe trabalhadora para combater as execuções hipotecárias e desafiar os laços entre os bancos e as cidades, e também está planejando ações voltadas para bancos específicos em 1º de março. E novos setores estão se juntando: 20 de fevereiro foi o Dia Nacional do Ocupar em apoio aos presos, e muitos ativistas do Ocupar estão mirando o 1º de maio como um catalisador para unir a luta contra os cortes na Educação e nos serviços sociais com o movimento contra as execuções hipotecárias e pelos direitos dos imigrantes. Este é o caminho a seguir para tornar o movimento Ocupar verdadeiramente representativo dos 99%, não apenas em slogans, mas na ação, e desenvolver uma alternativa política legítima aos democratas e o 1%.

Para os socialistas, a nossa estratégia é sempre buscar a mobilização de nossa classe, lutando por sua independência política, combatendo a influência ideológica do 1%, que hoje é exercido principalmente pelo Partido Democrata. É claro que o capitalismo e seu Estado são incapazes de atender às necessidades dos trabalhadores. Também é verdade que enquanto muitas pessoas estão com raiva do sistema político e econômico, a maioria ainda acredita (ou pelo menos espera) que ele pode ser transformado por uma reforma e não por meio de uma revolução. Esta é a razão porque os ativistas de qualquer tendência precisam prestar atenção às eleições. A classe dominante utiliza as eleições para canalizar nossa ação direta ao processo eleitoral e impedir que os trabalhadores conscientizem-se de que são a base para a mudança, ao invés dos políticos eleitorais.

Nós não pagaremos pela sua crise: o imposto aos milionários

Na Califórnia, o governador democrata Jerry Brown falou muito da necessidade de financiar a educação pública e promoveu um plano de aumento de impostos em 1% sobre os residentes que ganham pelo menos US$ 250.000 por ano, 1,5% para aqueles que ganham de US$ 300.000 a US$ 500.000 por ano, e 2% sobre os rendimentos acima de US$ 500.000. Ele vai levantar US$ 7 bilhões em receita por ano e grande parte vai para financiar a educação. Menos falado por partidários de Brown é o fato de que o imposto só dura 5 anos e de que a maior parte do dinheiro arrecadado virá de um aumento de 0,5% no imposto sobre o consumo.

Isso nada mais é que um imposto sobre os 99% para pagar a crise criada pelo 1% que reafirma sua estrutura de "dor compartilhada e sacrifícios compartilhados" para justificar os ataques. Precisamos rejeitar a estrutura ideológica imposta pelos democratas: não vamos pagar pela sua crise! É por isso que o imposto aos milionários na Califórnia é tão importante agora: tornou-se uma iniciativa de polarização, pois traz à tona a questão fundamental de quem deve pagar os resgates aos bancos e déficits orçamentários: os ricos e as corporações ou os 99%? Nossa resposta é clara e temos de convencer todas as entidades dos 99% para cortar seus laços com os democratas e recusar sua abordagem sobre a crise.

O Imposto aos milionários, patrocinado pela Federação de Professores da Califórnia, entre outros, aumenta os impostos em 3% sobre os rendimentos acima de US$ 1 milhão e 5% para quem ganha acima de US$3 milhões anuais. É permanente e levanta quase US$ 10 bilhões sem aumentar os impostos sobre os 99%. Além disso, sua receita é utilizada não só para a educação pública, mas para outros serviços sociais que precisam desesperadamente de ter verbas para sobreviver sem cortes. É também por isso que todos os ativistas que são sérios sobre a reconstrução do movimento Ocupar na Califórnia, devem apoiar e fazer coleta de assinaturas para o imposto aos milionários, mas isso deve ser feito em conjunto com as mobilizações de 1 º de Março e de 5 de Março, e não contra ou separado delas. Alguns ativistas apoiam o imposto, mas são contra a campanha em torno dele porque é "eleitoral". Isto significa que, assim, deixamos o campo aberto para o 1% a aplicar suas políticas e este é um erro.

Como dissemos acima, quer gostemos ou não, nosso público (os 99%) prestará tanta atenção, se não mais, às eleições do que ao movimento Ocupar. O imposto aos milionários desafia mais do que os ricos, é também um desafio direto a Jerry Brown e o Partido Democrata, pois eles usam a eleição de novembro e a proposta fiscal de Brown para canalizar o sentimento dos 99% diretamente sob as asas dos partidos políticos do 1% (democratas e republicanos). O apoio do Ocupar ao imposto aos milionários e à luta para obtê-lo nas urnas na Califórnia deve ser uma parte de toda organização do movimento na Califórnia.

Esta lição de estratégia (objetivos) e táticas (ações) e de como as táticas devem sempre fluir de nossa estratégia (e não o inverso) é uma lição antiga da história militar e da luta de classes. Queiram os ativistas do Ocupar ou os setores dos 99% ou não admitir, a realidade é que estamos em uma guerra. Os ataques contra nossas escolas, nossa saúde, nossas condições de trabalho, nossas comunidades e nosso meio ambiente não são eventos aleatórios ou da fragilidade humana. São atos conscientes de guerra sobre as condições de vida da grande maioria das pessoas neste planeta (99%) perpetrada por uma minúscula minoria (1%). Seu lado (as elites, a classe dominante, e os capitalistas) entende isto intimamente e elabora seus planos em conformidade. É hora do nosso lado despertar ao chamado de luta e levar a sério os planos e organizações que nosso lado necessita, não apenas travar uma luta, mas para ganhá-la.
 
 

[1] De acordo com o site do movimento,Occupy The Hood” (figurativamente: Ocupar o Topo) é um movimento nacional de base, composto por ativistas e organizações que lutam pela liberação, melhoria da qualidade de vida e pelas conquistas do povo negro oprimido despossuído.

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